Publicado no Letterboxd.

Meu querido Iñárritu,

Obrigado pelo Biutiful. Eu ainda não tinha percebido muito bem o ressabiamento que os sábios da crítica cinéfila tinham para contigo. Agora percebo. O Biutiful explicou tudo muito bem, atirou-me tudo para a cara de modo a ter a certeza que eu percebia.

E de modo a ter a certeza que eu me sentia mal no processo. Obrigado, Iñárritu.

Não vou dizer que o teu filme é uma coisinha sem méritos. Não é. Diz de minha parte ao Barden que me pareceu estar muito bem. Nos primeiros vinte minutos. Depois disso já não se aguenta, mas a culpa não foi dele. Diz-lhe isso de minha parte, Iñárritu.

Há mais coisas boas, como a subtileza com que trataste os fantasmas e os reflexos errados (não tenho outra designação para isto, são reflexos errados, pronto), aplaudo-te. Em certos momentos eriçou-se-me tudo, Iñárritu, mesmo tudo. Devias tentar um filme de terror. Sair-te-ia bem um de terror.

Pena que a subtileza se tenha esgotado aí e o caroço tenha saído tão gordo e rugoso que foi difícil não me engasgar nele e ir desta para melhor. Que abuso tão grande de desgraças num só filme! E eu até gosto de desgraças, eu até gosto de sair deprimido de um filme. Eu gostei do The Road, caralho! Não me podem acusar de não ter uma alma sensível. Estás a perceber, Iñárritu? Mas neste teu Biutiful estiveram a gritar-me de cinco em cinco minutos que eu devia sentir-me mal, e a seguir pior, e depois pior ainda. Vejamos a lista: é um filme sobre um homem que lida com trabalho ilegal de imigrantes em Barcelona, e este homem está a morrer de cancro, e este homem vê e fala com mortos, e este homem vive numa casa onde há baratas no tecto que nos são mostradas cena sim, cena não, e este homem é pai de um casal muito bonito e fofinho, mas cujo futuro é incerto porque a mãe é bipolar, bate no puto e deve andar a dar umas quecas com o irmão dele, e este homem acaba por ser responsável pela deportação de uma vintena de africanos que deixam para trás mulheres e bebés que choram muito, assim como pela morte por inalação de butano de outra vintena de chineses, incluindo mulheres e bebés que choram muito (pelo menos até o butano os transformar em bonecos de porcelana barata made in china), e este homem sente-se muito mal com tudo isto, sente-se muito mal muitas vezes e sofre muito.

Sofreu ele e sofri eu, Iñárritu, porque não é uma questão de Biutiful ser mau: Biutiful é uma desgraça.

Ao longo destes últimos anos, fui escrevendo pequenos textos que atirava para uma pasta chamada “Cartas a Pierre Menard”. Alguns desses textos foram partilhados aqui e no fotoalternativa. Outros nunca mostrei. Há três anos dediquei-me a dar-lhes um fio condutor. Para fazerem parte deste fio, textos foram alterados, outros descartados, outros escritos de propósito. O resultado final ficou fechado na gaveta desde então.

Recentemente a S. fez-me tirar o livro da gaveta e publicá-lo de alguma forma. Como tenho algumas birras relacionadas com questões de Copyright, decidi fazê-lo através da CreateSpace, podendo assim publicar com uma licença Creative Commons.

Convido-vos a conhecê-lo:

“Sempre soubeste que confundia as coisas com as palavras das coisas.”

Cinzas a Pierre Menard é o meu primeiro livro.

Apresenta um conjunto de narrativas à volta das experiências, observações e pensamentos de Sandoval, alguém que se afogou no mundo e nos homens, e que dedicou parte da sua vida à escrita de cartas que remetia a Pierre Menard.

Disponível através da Amazon Europe [ co.ukes | fr ]  €10

Ler uma passagem do livro AQUI.

Cinzas a Pierre Menard na Goodreads.

Aos que me são próximos: se estiverem interessados no livro e não quiserem encomendar pela Amazon, contactem-me por email. Quando houver pedidos suficientes faço uma encomenda global e depois combinamos para vos entregar.

O último artigo que aqui meti tem mais de um ano. Foi inserido no dia em que nasceu o D., que está a dias dos dezoito meses. Um filho é uma coisa gira.

Entretanto nunca mais consegui dar aulas e percebi que provavelmente nunca o voltarei a fazer. Terminei um mestrado, mas também percebi (já tarde e com uma certa sensação de embaraço) que dele não vou tirar algo que queira de facto agarrar. Não há problema. Nunca há problema. Vou abrir um café. Tudo está bem.

Deixei de fotografar quase completamente. Quer dizer, deixei de fotografar quase completamente tudo o que não seja o D. e a vida com o D. Deixei de mostrar o que fotografo e deixei de fazer login no Fotoalternativa. Não há problema. Nunca há problema. Comecei a jogar Go, por isso tudo está bem.

Deixei de escrever. Quer dizer. Deixei de escrever até há coisa de um mês, quando voltei a ter vontade de concretizar histórias que me surgiram na moleirinha. Por isso tudo está bem. Entretanto a S. obrigou-me a publicar o livro que já tenho na gaveta há três anos. Sobre isso digo alguma coisa amanhã. Aqui não. Agora não.

Este artigo é apenas um tipo a dizer ao Lázaro que se levante, que ele não está morto, estava era um bocado indisposto.

Newton foi infeliz. Escreveu as suas equações como quem faz ciência. Bem que podia ter escrito como quem faz arte. Escrevia-as numa tela e apresentava-as numa galeria. Era artista, não cientista, e as três leis eram arte, não eram ciência. Parecendo que não, ainda perdeu muita coisa. É que Newton gostava de barcos, mas aborrecia-se com aviões. Dizia, e estou a citar, que fazem muito barulho quando me passam sobre a casa. Como as suas equações eram ciência e não arte, foram usadas para tudo e mais alguma coisa, nomeadamente aviões. Tivesse-se lembrado de ser artista, e Newton podia declarar que a sua Obra (sim, que o artista faz Obras!) só podia ser usada em barcos, nunca em aviões. Ah, e recebia 10 libras por cada barco vendido, que na altura era muito dinheiro.

Eastman foi outro que tal. Tivesse sido esperto, e lançava o seu rolo de 35mm numa galeria, fazia-se artista e dizia que aquilo era a sua Obra. Dizia, e passo a especular uma citação, só aceitar a utilização da Obra em fotos de gajas nuas, mamalhudas e bem depiladas. Eastman gostava de gajas mamalhudas e depiladas e gostava de as ver nuas. Assim fez só um rolo, uma ferramenta, uma coisa menor, não comparável a uma Obra. Teve de ver malta a usar os seus rolos para fotografar velhinhos em romarias e não pôde fazer nada em relação a isso. Nem sequer recebeu 2% de cada livro de fotografia que se vendeu com fotografias tiradas com os seus rolos. Ainda para mais muitos usavam o seu nome na ficha técnica: Obra realizada com Tmax 400. Já o fotógrafo que usou o Tmax 400 pôde recusar que Eastman usasse uma imagem sua para efeitos de publicidade à marca. Faz sentido: o fotógrafo é Artista, é um ser superior.

Eastman e Newton são seres inferiores, são apenas uns tipos que fizeram umas cenas que não merecem protecção tão agressiva. Um fez umas equações. O outro fez uns rolos.

Nesta vida o importante é estabelecer prioridades, é ter hierarquias.

Do que li em 2011, American Gods foi o livro que mais me desiludiu. Não que seja mau. Não que não tenha gostado. Não é. Gostei. O problema era aquilo que eu esperava – e eu esperava, sei lá, ouro ou diamantes ou todas as especiarias da Índia num comprimido. Gaiman foi demasiado ambicioso para o seu próprio bem, e decidiu trabalhar num livro que, parece-me, poucos macacos humanos na história dos macacos humanos seriam capazes de completar com a grandiloquência que aquilo pedia.

Isso não invalida que seja um belo livro, um puro Gaiman, com tudo o que ele tem de mau e de bom – e de maravilhoso, claro. Algumas passagens são daquelas que nos fazem bater com força na perna e exclamar Puta que o pariu! Hoje, enquanto a Paula macaqueava comigo (que eu nunca macaqueio com ninguém, haja respeito ao menos na minha casa!) lembrei-me de uma delas. Aqui fica, sem mais delongas:

I can believe things that are true and I can believe things that aren’t true and I can believe things where nobody knows if they’re true or not. I can believe in Santa Claus and the Easter Bunny and Marilyn Monroe and the Beatles and Elvis and Mister Ed. Listen-I believe that people are perfectible, that knowledge is infinite, that the world is run by secret banking cartels and is visited by aliens on a regular basis, nice ones that look like wrinkledy lemurs and bad ones who mutilate cattle and want our water and our women. I believe that the future sucks and I believe that the future rocks and I believe that one day White Buffalo Woman is going to come back and kick everyone’s ass. I believe that all men are just overgrown boys with deep problems communicating and that the decline in good sex in America is coincident with the decline in drive-in movie theaters from state to state. I believe that all politicians are unprincipled crooks and I still believe that they are better than the alternative. I believe that California is going to sink into the sea when the big one comes, while Florida is going to dissolve into madness and alligators and toxic waste. I believe that antibacterial soap is destroying our resistance to dirt and disease so that one day we’ll all be wiped out by the common cold like the Martians in War of the Worlds. I believe that the greatest poets of the last century were Edith Sitwell and Don Marquis, that jade is dried dragon sperm, and that thousands of years ago in a former life I was a one-armed Siberian shaman. I believe that mankind’s destiny lies in the stars. I believe that candy really did taste better when I was a kid, that it’s aerodynamically impossible for a bumblebee to fly, that light is a wave and a particle, that there’s a cat in a box somewhere who’s alive and dead at the same time (although if they don’t ever open the box to feed it it’ll eventually just be two different kinds of dead), and that there are stars in the universe billions of years older than the universe itself. I believe in a personal god who cares about me and worries and oversees everything I do. I believe in an impersonal god who set the universe in motion and went off to hang with her girlfriends and doesn’t even know that I’m alive. I believe in an empty and godless universe of causal chaos, background noise, and sheer blind luck. I believe that anyone who says that sex is overrated just hasn’t done it properly. I believe that anyone who claims to know what’s going on will lie about the little things too. I believe in absolute honesty and sensible social lies. I believe in a woman’s right to choose, a baby’s right to live, that while all human life is sacred there’s nothing wrong with the death penalty if you can trust the legal system implicitly, and that no one but a moron would ever trust the legal system. I believe that life is a game, that life is a cruel joke, and that life is what happens when you’re alive and that you might as well lie back and enjoy it.

Neil Gaiman, American Gods (Author’s Preferred Text), 2001

Estávamos três e dois deles concordaram: os ciclistas urbanos do Porto são pouco respeitadores das regras, e acabam por passar uma má imagem desse nobre acto que é pedalar na cidade. Um dos três era até o Sérgio, um nobre paladino dessa nobre causa. Ele concordou e afirmou que os ciclistas urbanos deviam respeitar mais as regras. Acabei por ficar ali eu, a valer apenas um terço, com aquele ar de quem não estava a perceber e de quem se sentia acusado de algo. Regras? Quais regras?, pensei eu, ciclista urbano profundamente desrespeitador.

Aqui há uns anos viajámos a terras de senhora Merckel. Em Munique alugámos umas bicicletas e partimos assim à descoberta da cidade. Aí eu respeitei as regras. Não chateei um vermelho. Não atropelei um peão. Não viajei em sentido contrário. Não fiz nada dessas coisas que envergonham a causa do ciclismo urbano. Mas há motivos para isso, claro. Em Munique todas as ruas principais têm ciclovias. Nas ruas mais secundárias conduz-se com relativa calma, pelo que é seguro pedalar. Há semáforos e passadeiras específicos para ciclistas em todo o lado. Em suma, em Munique há regras, mas há também condições para que essas regras sejam cumpridas.

Regressemos ao Porto. Ciclovias só na margem do Douro ou junto à praia, que é onde fica bonito nos postais dos turistas. Fora desses santuários nada, e começa o filme. Se pedalamos nos passeios os peões mauzões insultam-nos. Se pedalamos na estrada os condutores mauzões buzinam. Quer dizer, buzinam quando temos sorte, quando temos azar apertam-nos e aproximam-se perigosamente de nos dar o prazer do sexo anal com o motor dos seus belos carros. Eis o que já me aconteceu: subia a Damião de Góis, encostado à via BUS, mas não a pisá-la, como mandam as regras. Um conjunto alargado de condutores foi-me buzinando para que me chegasse mais para “lá”, até que um me apertou perigosamente e eu acabei por obedecer. Poucos segundos depois tinha um autocarro atrás de mim a buzinar como se o mundo acabasse mesmo em 2012, e eu sem meio de regressar à via normal, dado naquele momento estar a ser usada como autoestrada. Claro está, mal tive oportunidade enfiei-me no passeio e por lá fui até ao meu destino.

Uma bicicleta nem é peão nem é carro. As regras de qualquer um dos dois não se adequam. Numa cidade como o Porto, seremos ciclistas chatos, perigosos e/ou desrespeitadores seja qual for a nossa escolha. Má sina, ein? É por estas e por outras que, mal por mal, eu escolho o que me parece mais seguro para mim e para os outros, e a verdade é que muitas vezes é mais seguro atravessar um cruzamento quando está vermelho, mas não há trânsito, do que esperar pelo verde, e levar com a  fúria da manada metalizada a sabotar-nos o centro de massa.

Gosto de respirar, caraças. Gosto tanto de respirar que julgo ser a actividade que mais fiz ao longo da minha vida. Por tal estou-me nas tintas para essas regras imaginárias, e tento comportar-me de modo a maximizar o tempo durante o qual posso respirar. Isso significa que às vezes vou pelo passeio e às vezes passo vermelhos.

Agora um pê ésse: claro, há ciclistas que andam pelo meio dos peões como se estivessem a fazer downhill, ou por entre o trânsito como numa pista de carrinhos de choque. Estes ciclistas são parvos, não porque desrespeitem regras, mas porque desrespeitam o bem estar das suas pilas e das pilas dos outros. Mas parvos há em todo o lado. Há peões parvos e há condutores parvos. Termino com a ressalva que não era de parvos que estava a falar.