Em 2012 acompanhei o João numa viagem entre Bruxelas e Porto. Não se conversou sobre nada de jeito. Não se fotografou nada de jeito. Não se filmou nada de jeito.

Excelente material, portanto, para transformar num pequeno filme de 20 minutos. Ou mais.

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Enquanto não tenho coisas novas, siga com coisas de quando ainda me mexia com película.

Café Magestic, Porto, 2003

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Próxima quinta-feira, dia 29 de Janeiro, estreia no Porto o filme Bicicleta, uma curta (média?) metragem realizada por Luís Vieira Campos e com argumento de Valter Hugo Mãe. Eu não sou a mais informada das criaturas, e só soube disto porque a fotografia de cena ficou a cargo do Nelson D’Aires.

Nelson D'Aires

Ainda bem que soube.

Luís Vieira Campos entrou no bairro do Aleixo em pleno processo de “reestruturação”, e pôde assim filmar-lhe as pessoas e as entranhas quando tudo era já pó anunciado. Pôde também viver o bairro de um modo pouco habitual a quem não lhe pertence:

Eu comecei este trabalho em 2009, por isso, quando a equipa começou a ir comigo, no fim de 2012, eu já me sentia muito à vontade. A partir de certa altura até nos sentíamos à vontade de mais. Um dia, um dos actores estava com dificuldade em concentrar-se e foi para o carro para relaxar. Mais tarde chamei-o, ele subiu e deixou, toda a tarde, o carro aberto com a chave na ignição, e a carteira no banco. Não aconteceu nada. Outro dia, uma pessoa do bairro que nos ajudou muito veio entregar-me a chave da carrinha de imagem na mão a dizer-me: ‘Oh Luís, vocês fiquem à vontade mas também não exagerem.’

Luís Vieira Campos, para o projecto Porto Olhos nos Olhos

Tudo para funcionar, portanto. Eu estou cada vez mais “afastado” do Porto, mas quem por lá estiver, já sabe: quinta (ou sexta), às 22h00, no Rivoli. Mais informações aqui.

A Amazon mudou, recentemente, o modo de cobrar os portes de envio para Portugal. Também mudou meia dúzia de detalhes fiscais que não encaixam bem com a minha situação atual, mas adiante. O resultado é que vou deixar de ter o Cinzas a Pierre Menard à venda pela Amazon, mas vou transferir o livro para outro serviço. Talvez mude qualquer coisa. A capa. O cheiro do papel. Ou o da tinta. Sei lá.

Entretanto fica aqui um capítulo, um dos meus favoritos:

Meu querido Pierre Menard,

hoje queria escrever-te um poema que tivesse a força de gritar
– Estupendo, estupendo,
à vida.
Vi de imediato as palavras atropelarem-se na berma do passeio, logo eu que sempre fui precipitado a ordená-las, eu e a mania de as achar ali muito bem à primeira só porque não me ocorre outra ordem. Atirei-me a elas, fiz-me puxá-las a fio e dedo, fiz-me cansá-las de um lado para o outro, fiz-me desviar os olhos das luzes e das pessoas para não me distrair. Corri para onde tenho uma mesa, onde tenho sempre uma folha branca que preparei para quando a palavra é um cachalote, mas deu-me a fraqueza, Pierre, o dedo tremelicou, o fio soltou-se na vertical, a mesa já ali ao pé, caramba, mas perco tudo.
Ao chegar à folha branca acabei por escrever,

Meu querido Pierre Menard,

tinha, para ti, um poema tão forte como gritar
– Estupendo, estupendo,
à vida, mas perdi-o pelo caminho.

Amarrotei a folha e atirei-a para o lixo. Aquilo não era carta para ti, Peguei num maço de folhas, abandonei a mesa e dirigi-me à noite com luzes e pessoas. Há-de voltar, o sacana. Aliviei a garganta, disse,
– Estupendo. Estupendo.
Escrevi na folha branca,
Estupendo. Estupendo.
Ainda não era poema. Tentei novamente. Desta vez na folha branca,
Estupendo. Estupendo.
Melhorara consideravelmente. Já havia ali estética. Para o caso de não me sair melhor, decidi-me por guardar esta última folha no bolso, bem dobrada.
Nesse instante passou por mim o homem. Cumprimentou-me. Ora pois, o homem, pensei, irá certamente para onde sempre vão aqueles que querem inspirar escritores. Segui-o.
Sentou-se num parque onde existia um púlpito. Sentei-me a seu lado. Claro, pensei, evitei as pessoas mas é lá que estão os poemas.
– Não é não,
corrigiu-me o homem, e continuou a falar, mas no púlpito surgiu um calígrafo e deixei de atentar ao que disse.
O calígrafo apresentou um pão de centeio e abriu-o ao meio. Retirou-lhe um pequeno pedaço de miolo que espalmou entre os dedos. Com cuidado, escavou. Aproximei-me. Li,
Estupendo. Estupendo.
Sorri com simpatia, mas sabia que tinha no bolso bem melhor versão. O calígrafo, apercebendo-se, afastou-se curvado, mas não deixei de o aplaudir. O homem também o aplaudiu, estava visivelmente impressionado.
Surgiu no púlpito um casal de culpados. Sorriam um para o outro e ignoravam-me. Não me pareceu uma boa estratégia de inspiração, mas aguardei de qualquer modo. O casal de culpados iniciou um longo beijo. Achei que poderia aguardar que se despissem, que se tocassem, que se beijassem noutros lugares, mas o casal de culpados cimentou-se naquele beijo. Olhei o homem, mas este encolheu os ombros e passou-me um martelo e um cinzel para as mãos. Aproximei-me do casal, apontei o cinzel a uma das linhas que os dividia e martelei-o com quanta força tinha. Todo o cimento ruiu. O homem voltou a encolher os ombros, mas depois ergueu-se e aplaudiu.
Surgiu no púlpito um denominador. Foi violentíssimo no modo como se inclinou para mim e como me falou. Disse,
– Pensas pequeno, rapaz. O que te apetece gritar à vida?
– Estupendo. Estupendo.
– Então porque gritas apenas
– Estupendo. Estupendo.
?
Sorri. Acabara de perceber que o poema que queria escrever-te teria de conter todas as palavras do mundo. O denominador repetiu,
– O que te apetece gritar à vida, rapaz?
Ergui-me, peguei novamente numa das folhas, ah, sentir os dedos numa indignação do termómetro, haveria de te escrever o poema de todas as palavras, digo-te o que me apetece gritar à vida, digo-te já.
E escrevi. Escrevi durante longas horas. Olharam-me o homem e o denominador. O primeiro sereno, o segundo sereno. Quando terminei, voltei a folha para ambos. Leram,
Estupendo. Estupendo.
O homem ergueu-se e aplaudiu. O denominador baixou os olhos. Disse,
– Sai daqui.
e desapareceu no púlpito.
O homem aproximou-se,
– Bem te disse que não é nas pessoas que estão os poemas,
e afastou-se.
Amarrotei todas as folhas e larguei-as no passeio. Ainda esperei, mas não surgiu mais ninguém. Sentei-me. Senti-me calmo, o que me surpreendeu.
Apercebi-me, eu já não era a necessidade de te remeter um poema, eu apenas confissões seladas em envelopes, eu sou eu a enviar-me. Dias mais tarde esquecer-me-ei do que escrevi. Depois esqueço-me que escrevi. Eventualmente acabarei por me esquecer que escrevo. Acordo e digo,
– Não escrevo. Nunca escrevi uma única palavra.
E, acto contínuo, anoto a frase numa folha de papel.

Ao passar os olhos por algum do espólio em película a cores que tenho para aqui digitalizado, apercebo-me de duas coisas:

1) eu já gostei muito de fotografar;

2) eu já fui dono e senhor de uma imensa sensibilidade estética, um invejável apuramento técnico e uma fina atenção ao grosso do comportamento humano, tanto que, fosse o cosmos imiscuído de qualquer justiça, deveria encontrar-me afogado em fama e dinheiro.

As imagens que se seguem atestam a verdade do que acabei de escrever. Ou o contrário.

À vossa

Raquel, franzina de ossadura, matulona de moleirinha! Sometimes people say my head is too big for my body. Then I say “Compared to what?E ela lá vai, compared to nada de nada, com a cabeça grande e a cabeça cheia de coisas bonitas e a cabeça aberta.

Aberta noutro sentido, claro.

A Raquel tem uma exposição em Lisboa, mais precisamente na studio teambox, que vai estar disponível até 29 de Janeiro.

É visitar, gente, é visitar.

Aqui há meia dúzia de dias posei para um projecto do Alberto com um tabuleiro de Go na mão. Entretanto fui atirando esse tabuleiro, entre outros, para a minha conta no Instagram.

O projecto do Alberto é bem mais interessante, mas enquanto ele não o atira para um espaço público, fico-me por atirar para aqui isto:






Go é um jogo giro e eu ainda o vou aprender a jogar.

 

Miguel Gomes é o autor de dois filmes de que gostei muito. Aquele Querido Mês de Agosto (2008) está, aliás, na minha carteira de favoritos, pronto a sacar sempre que alguém me vem com pedidos de bons filmes portugueses. Esta semana soube que “está a trabalhar num filme sobre a crise” em Portugal. Vai chamar-se As 1001 Noites, deverá estar pronto já em Fevereiro e é novamente produzido pela Som e a Fúria.

O que se pretende com este filme é fazer duas coisas em simultâneo: 1) retomar o espírito delirantemente ficcional de As Mil e Uma Noites e sobretudo reafirmar com ele e através dele o vínculo que une o Rei e Xerazade (a imperiosa necessidade de histórias), e 2) traçar um retrato ou uma crónica de Portugal durante um ano (num momento em que o país está sujeito aos efeitos da “austeridade” criados pelo programa de assistência financeira da Troika). Ficção e retrato social, tapetes voadores e greves. Aparentemente dimensões que não estão ligadas ou pelo menos que nos habituamos a arrumar em diferentes gavetas. Mas imaginário e realidade nunca puderam viver um sem o outro (e Xerazade bem o sabe).

Descrição completa aqui.

Isto assusta-me e entusiasma-me ao mesmo tempo. O território é mais pantanoso que o Portugal dos bailaricos e as velhas glórias coloniais.

Soube tudo isto através do autor das ilustrações que farão parte do filme: Tiago Manuel, um artista plástico multifacetado, de Viana do Castelo. Vale bem a pena espreitar o cantinho dele, assim como a colecção das ilustrações para As 1001 Noites. Fica aqui uma amostra: