Enquanto não tenho coisas novas, siga com coisas de quando ainda me mexia com película.

Café Magestic, Porto, 2003

+Flickr

Próxima quinta-feira, dia 29 de Janeiro, estreia no Porto o filme Bicicleta, uma curta (média?) metragem realizada por Luís Vieira Campos e com argumento de Valter Hugo Mãe. Eu não sou a mais informada das criaturas, e só soube disto porque a fotografia de cena ficou a cargo do Nelson D’Aires.

Nelson D'Aires

Ainda bem que soube.

Luís Vieira Campos entrou no bairro do Aleixo em pleno processo de “reestruturação”, e pôde assim filmar-lhe as pessoas e as entranhas quando tudo era já pó anunciado. Pôde também viver o bairro de um modo pouco habitual a quem não lhe pertence:

Eu comecei este trabalho em 2009, por isso, quando a equipa começou a ir comigo, no fim de 2012, eu já me sentia muito à vontade. A partir de certa altura até nos sentíamos à vontade de mais. Um dia, um dos actores estava com dificuldade em concentrar-se e foi para o carro para relaxar. Mais tarde chamei-o, ele subiu e deixou, toda a tarde, o carro aberto com a chave na ignição, e a carteira no banco. Não aconteceu nada. Outro dia, uma pessoa do bairro que nos ajudou muito veio entregar-me a chave da carrinha de imagem na mão a dizer-me: ‘Oh Luís, vocês fiquem à vontade mas também não exagerem.’

Luís Vieira Campos, para o projecto Porto Olhos nos Olhos

Tudo para funcionar, portanto. Eu estou cada vez mais “afastado” do Porto, mas quem por lá estiver, já sabe: quinta (ou sexta), às 22h00, no Rivoli. Mais informações aqui.

A Amazon mudou, recentemente, o modo de cobrar os portes de envio para Portugal. Também mudou meia dúzia de detalhes fiscais que não encaixam bem com a minha situação atual, mas adiante. O resultado é que vou deixar de ter o Cinzas a Pierre Menard à venda pela Amazon, mas vou transferir o livro para outro serviço. Talvez mude qualquer coisa. A capa. O cheiro do papel. Ou o da tinta. Sei lá.

Entretanto fica aqui um capítulo, um dos meus favoritos:

Meu querido Pierre Menard,

hoje queria escrever-te um poema que tivesse a força de gritar
– Estupendo, estupendo,
à vida.
Vi de imediato as palavras atropelarem-se na berma do passeio, logo eu que sempre fui precipitado a ordená-las, eu e a mania de as achar ali muito bem à primeira só porque não me ocorre outra ordem. Atirei-me a elas, fiz-me puxá-las a fio e dedo, fiz-me cansá-las de um lado para o outro, fiz-me desviar os olhos das luzes e das pessoas para não me distrair. Corri para onde tenho uma mesa, onde tenho sempre uma folha branca que preparei para quando a palavra é um cachalote, mas deu-me a fraqueza, Pierre, o dedo tremelicou, o fio soltou-se na vertical, a mesa já ali ao pé, caramba, mas perco tudo.
Ao chegar à folha branca acabei por escrever,

Meu querido Pierre Menard,

tinha, para ti, um poema tão forte como gritar
– Estupendo, estupendo,
à vida, mas perdi-o pelo caminho.

Amarrotei a folha e atirei-a para o lixo. Aquilo não era carta para ti, Peguei num maço de folhas, abandonei a mesa e dirigi-me à noite com luzes e pessoas. Há-de voltar, o sacana. Aliviei a garganta, disse,
– Estupendo. Estupendo.
Escrevi na folha branca,
Estupendo. Estupendo.
Ainda não era poema. Tentei novamente. Desta vez na folha branca,
Estupendo. Estupendo.
Melhorara consideravelmente. Já havia ali estética. Para o caso de não me sair melhor, decidi-me por guardar esta última folha no bolso, bem dobrada.
Nesse instante passou por mim o homem. Cumprimentou-me. Ora pois, o homem, pensei, irá certamente para onde sempre vão aqueles que querem inspirar escritores. Segui-o.
Sentou-se num parque onde existia um púlpito. Sentei-me a seu lado. Claro, pensei, evitei as pessoas mas é lá que estão os poemas.
– Não é não,
corrigiu-me o homem, e continuou a falar, mas no púlpito surgiu um calígrafo e deixei de atentar ao que disse.
O calígrafo apresentou um pão de centeio e abriu-o ao meio. Retirou-lhe um pequeno pedaço de miolo que espalmou entre os dedos. Com cuidado, escavou. Aproximei-me. Li,
Estupendo. Estupendo.
Sorri com simpatia, mas sabia que tinha no bolso bem melhor versão. O calígrafo, apercebendo-se, afastou-se curvado, mas não deixei de o aplaudir. O homem também o aplaudiu, estava visivelmente impressionado.
Surgiu no púlpito um casal de culpados. Sorriam um para o outro e ignoravam-me. Não me pareceu uma boa estratégia de inspiração, mas aguardei de qualquer modo. O casal de culpados iniciou um longo beijo. Achei que poderia aguardar que se despissem, que se tocassem, que se beijassem noutros lugares, mas o casal de culpados cimentou-se naquele beijo. Olhei o homem, mas este encolheu os ombros e passou-me um martelo e um cinzel para as mãos. Aproximei-me do casal, apontei o cinzel a uma das linhas que os dividia e martelei-o com quanta força tinha. Todo o cimento ruiu. O homem voltou a encolher os ombros, mas depois ergueu-se e aplaudiu.
Surgiu no púlpito um denominador. Foi violentíssimo no modo como se inclinou para mim e como me falou. Disse,
– Pensas pequeno, rapaz. O que te apetece gritar à vida?
– Estupendo. Estupendo.
– Então porque gritas apenas
– Estupendo. Estupendo.
?
Sorri. Acabara de perceber que o poema que queria escrever-te teria de conter todas as palavras do mundo. O denominador repetiu,
– O que te apetece gritar à vida, rapaz?
Ergui-me, peguei novamente numa das folhas, ah, sentir os dedos numa indignação do termómetro, haveria de te escrever o poema de todas as palavras, digo-te o que me apetece gritar à vida, digo-te já.
E escrevi. Escrevi durante longas horas. Olharam-me o homem e o denominador. O primeiro sereno, o segundo sereno. Quando terminei, voltei a folha para ambos. Leram,
Estupendo. Estupendo.
O homem ergueu-se e aplaudiu. O denominador baixou os olhos. Disse,
– Sai daqui.
e desapareceu no púlpito.
O homem aproximou-se,
– Bem te disse que não é nas pessoas que estão os poemas,
e afastou-se.
Amarrotei todas as folhas e larguei-as no passeio. Ainda esperei, mas não surgiu mais ninguém. Sentei-me. Senti-me calmo, o que me surpreendeu.
Apercebi-me, eu já não era a necessidade de te remeter um poema, eu apenas confissões seladas em envelopes, eu sou eu a enviar-me. Dias mais tarde esquecer-me-ei do que escrevi. Depois esqueço-me que escrevi. Eventualmente acabarei por me esquecer que escrevo. Acordo e digo,
– Não escrevo. Nunca escrevi uma única palavra.
E, acto contínuo, anoto a frase numa folha de papel.

Ao passar os olhos por algum do espólio em película a cores que tenho para aqui digitalizado, apercebo-me de duas coisas:

1) eu já gostei muito de fotografar;

2) eu já fui dono e senhor de uma imensa sensibilidade estética, um invejável apuramento técnico e uma fina atenção ao grosso do comportamento humano, tanto que, fosse o cosmos imiscuído de qualquer justiça, deveria encontrar-me afogado em fama e dinheiro.

As imagens que se seguem atestam a verdade do que acabei de escrever. Ou o contrário.

À vossa

Raquel, franzina de ossadura, matulona de moleirinha! Sometimes people say my head is too big for my body. Then I say “Compared to what?E ela lá vai, compared to nada de nada, com a cabeça grande e a cabeça cheia de coisas bonitas e a cabeça aberta.

Aberta noutro sentido, claro.

A Raquel tem uma exposição em Lisboa, mais precisamente na studio teambox, que vai estar disponível até 29 de Janeiro.

É visitar, gente, é visitar.

Aqui há meia dúzia de dias posei para um projecto do Alberto com um tabuleiro de Go na mão. Entretanto fui atirando esse tabuleiro, entre outros, para a minha conta no Instagram.

O projecto do Alberto é bem mais interessante, mas enquanto ele não o atira para um espaço público, fico-me por atirar para aqui isto:






Go é um jogo giro e eu ainda o vou aprender a jogar.

 

Miguel Gomes é o autor de dois filmes de que gostei muito. Aquele Querido Mês de Agosto (2008) está, aliás, na minha carteira de favoritos, pronto a sacar sempre que alguém me vem com pedidos de bons filmes portugueses. Esta semana soube que “está a trabalhar num filme sobre a crise” em Portugal. Vai chamar-se As 1001 Noites, deverá estar pronto já em Fevereiro e é novamente produzido pela Som e a Fúria.

O que se pretende com este filme é fazer duas coisas em simultâneo: 1) retomar o espírito delirantemente ficcional de As Mil e Uma Noites e sobretudo reafirmar com ele e através dele o vínculo que une o Rei e Xerazade (a imperiosa necessidade de histórias), e 2) traçar um retrato ou uma crónica de Portugal durante um ano (num momento em que o país está sujeito aos efeitos da “austeridade” criados pelo programa de assistência financeira da Troika). Ficção e retrato social, tapetes voadores e greves. Aparentemente dimensões que não estão ligadas ou pelo menos que nos habituamos a arrumar em diferentes gavetas. Mas imaginário e realidade nunca puderam viver um sem o outro (e Xerazade bem o sabe).

Descrição completa aqui.

Isto assusta-me e entusiasma-me ao mesmo tempo. O território é mais pantanoso que o Portugal dos bailaricos e as velhas glórias coloniais.

Soube tudo isto através do autor das ilustrações que farão parte do filme: Tiago Manuel, um artista plástico multifacetado, de Viana do Castelo. Vale bem a pena espreitar o cantinho dele, assim como a colecção das ilustrações para As 1001 Noites. Fica aqui uma amostra:

e sobre o tédio.

Meu querido Iñárritu,

Obrigado pelo Biutiful. Eu ainda não tinha percebido muito bem o ressabiamento que os sábios da crítica cinéfila tinham para contigo. Agora percebo. O Biutiful explicou tudo muito bem, atirou-me tudo para a cara de modo a ter a certeza que eu percebia.

E de modo a ter a certeza que eu me sentia mal no processo. Obrigado, Iñárritu.

Não vou dizer que o teu filme é uma coisinha sem méritos. Não é. Diz de minha parte ao Barden que me pareceu estar muito bem. Nos primeiros vinte minutos. Depois disso já não se aguenta, mas a culpa não foi dele. Diz-lhe isso de minha parte, Iñárritu.

Há mais coisas boas, como a subtileza com que trataste os fantasmas e os reflexos errados (não tenho outra designação para isto, são reflexos errados, pronto), aplaudo-te. Em certos momentos eriçou-se-me tudo, Iñárritu, mesmo tudo. Devias tentar um filme de terror. Sair-te-ia bem um de terror.

Pena que a subtileza se tenha esgotado aí e o caroço tenha saído tão gordo e rugoso que foi difícil não me engasgar nele e ir desta para melhor. Que abuso tão grande de desgraças num só filme! E eu até gosto de desgraças, eu até gosto de sair deprimido de um filme. Eu gostei do The Road, caralho! Não me podem acusar de não ter uma alma sensível. Estás a perceber, Iñárritu? Mas neste teu Biutiful estiveram a gritar-me de cinco em cinco minutos que eu devia sentir-me mal, e a seguir pior, e depois pior ainda. Vejamos a lista: é um filme sobre um homem que lida com trabalho ilegal de imigrantes em Barcelona, e este homem está a morrer de cancro, e este homem vê e fala com mortos, e este homem vive numa casa onde há baratas no tecto que nos são mostradas cena sim, cena não, e este homem é pai de um casal muito bonito e fofinho, mas cujo futuro é incerto porque a mãe é bipolar, bate no puto e deve andar a dar umas quecas com o irmão dele, e este homem acaba por ser responsável pela deportação de uma vintena de africanos que deixam para trás mulheres e bebés que choram muito, assim como pela morte por inalação de butano de outra vintena de chineses, incluindo mulheres e bebés que choram muito (pelo menos até o butano os transformar em bonecos de porcelana barata made in china), e este homem sente-se muito mal com tudo isto, sente-se muito mal muitas vezes e sofre muito.

Sofreu ele e sofri eu, Iñárritu, porque não é uma questão de Biutiful ser mau: Biutiful é uma desgraça.

 

+ Letterboxd

Ao longo destes últimos anos, fui escrevendo pequenos textos que atirava para uma pasta chamada “Cartas a Pierre Menard”. Alguns desses textos foram partilhados aqui e no fotoalternativa. Outros nunca mostrei. Há três anos dediquei-me a dar-lhes um fio condutor. Para fazerem parte deste fio, textos foram alterados, outros descartados, outros escritos de propósito. O resultado final ficou fechado na gaveta desde então.

Recentemente a S. fez-me tirar o livro da gaveta e publicá-lo de alguma forma. Como tenho algumas birras relacionadas com questões de Copyright, decidi fazê-lo através da CreateSpace, podendo assim publicar com uma licença Creative Commons.

Convido-vos a conhecê-lo:

“Sempre soubeste que confundia as coisas com as palavras das coisas.”

Cinzas a Pierre Menard é o meu primeiro livro.

Apresenta um conjunto de narrativas à volta das experiências, observações e pensamentos de Sandoval, alguém que se afogou no mundo e nos homens, e que dedicou parte da sua vida à escrita de cartas que remetia a Pierre Menard.

Disponível através da Amazon Europe [ co.ukes | fr ]  €10

Ler uma passagem do livro AQUI.

Cinzas a Pierre Menard na Goodreads.

Aos que me são próximos: se estiverem interessados no livro e não quiserem encomendar pela Amazon, contactem-me por email. Quando houver pedidos suficientes faço uma encomenda global e depois combinamos para vos entregar.