Do que li em 2011, American Gods foi o livro que mais me desiludiu. Não que seja mau. Não que não tenha gostado. Não é. Gostei. O problema era aquilo que eu esperava – e eu esperava, sei lá, ouro ou diamantes ou todas as especiarias da Índia num comprimido. Gaiman foi demasiado ambicioso para o seu próprio bem, e decidiu trabalhar num livro que, parece-me, poucos macacos humanos na história dos macacos humanos seriam capazes de completar com a grandiloquência que aquilo pedia.

Isso não invalida que seja um belo livro, um puro Gaiman, com tudo o que ele tem de mau e de bom – e de maravilhoso, claro. Algumas passagens são daquelas que nos fazem bater com força na perna e exclamar Puta que o pariu! Hoje, enquanto a Paula macaqueava comigo (que eu nunca macaqueio com ninguém, haja respeito ao menos na minha casa!) lembrei-me de uma delas. Aqui fica, sem mais delongas:

I can believe things that are true and I can believe things that aren’t true and I can believe things where nobody knows if they’re true or not. I can believe in Santa Claus and the Easter Bunny and Marilyn Monroe and the Beatles and Elvis and Mister Ed. Listen-I believe that people are perfectible, that knowledge is infinite, that the world is run by secret banking cartels and is visited by aliens on a regular basis, nice ones that look like wrinkledy lemurs and bad ones who mutilate cattle and want our water and our women. I believe that the future sucks and I believe that the future rocks and I believe that one day White Buffalo Woman is going to come back and kick everyone’s ass. I believe that all men are just overgrown boys with deep problems communicating and that the decline in good sex in America is coincident with the decline in drive-in movie theaters from state to state. I believe that all politicians are unprincipled crooks and I still believe that they are better than the alternative. I believe that California is going to sink into the sea when the big one comes, while Florida is going to dissolve into madness and alligators and toxic waste. I believe that antibacterial soap is destroying our resistance to dirt and disease so that one day we’ll all be wiped out by the common cold like the Martians in War of the Worlds. I believe that the greatest poets of the last century were Edith Sitwell and Don Marquis, that jade is dried dragon sperm, and that thousands of years ago in a former life I was a one-armed Siberian shaman. I believe that mankind’s destiny lies in the stars. I believe that candy really did taste better when I was a kid, that it’s aerodynamically impossible for a bumblebee to fly, that light is a wave and a particle, that there’s a cat in a box somewhere who’s alive and dead at the same time (although if they don’t ever open the box to feed it it’ll eventually just be two different kinds of dead), and that there are stars in the universe billions of years older than the universe itself. I believe in a personal god who cares about me and worries and oversees everything I do. I believe in an impersonal god who set the universe in motion and went off to hang with her girlfriends and doesn’t even know that I’m alive. I believe in an empty and godless universe of causal chaos, background noise, and sheer blind luck. I believe that anyone who says that sex is overrated just hasn’t done it properly. I believe that anyone who claims to know what’s going on will lie about the little things too. I believe in absolute honesty and sensible social lies. I believe in a woman’s right to choose, a baby’s right to live, that while all human life is sacred there’s nothing wrong with the death penalty if you can trust the legal system implicitly, and that no one but a moron would ever trust the legal system. I believe that life is a game, that life is a cruel joke, and that life is what happens when you’re alive and that you might as well lie back and enjoy it.

Neil Gaiman, American Gods (Author’s Preferred Text), 2001

Estávamos três e dois deles concordaram: os ciclistas urbanos do Porto são pouco respeitadores das regras, e acabam por passar uma má imagem desse nobre acto que é pedalar na cidade. Um dos três era até o Sérgio, um nobre paladino dessa nobre causa. Ele concordou e afirmou que os ciclistas urbanos deviam respeitar mais as regras. Acabei por ficar ali eu, a valer apenas um terço, com aquele ar de quem não estava a perceber e de quem se sentia acusado de algo. Regras? Quais regras?, pensei eu, ciclista urbano profundamente desrespeitador.

Aqui há uns anos viajámos a terras de senhora Merckel. Em Munique alugámos umas bicicletas e partimos assim à descoberta da cidade. Aí eu respeitei as regras. Não chateei um vermelho. Não atropelei um peão. Não viajei em sentido contrário. Não fiz nada dessas coisas que envergonham a causa do ciclismo urbano. Mas há motivos para isso, claro. Em Munique todas as ruas principais têm ciclovias. Nas ruas mais secundárias conduz-se com relativa calma, pelo que é seguro pedalar. Há semáforos e passadeiras específicos para ciclistas em todo o lado. Em suma, em Munique há regras, mas há também condições para que essas regras sejam cumpridas.

Regressemos ao Porto. Ciclovias só na margem do Douro ou junto à praia, que é onde fica bonito nos postais dos turistas. Fora desses santuários nada, e começa o filme. Se pedalamos nos passeios os peões mauzões insultam-nos. Se pedalamos na estrada os condutores mauzões buzinam. Quer dizer, buzinam quando temos sorte, quando temos azar apertam-nos e aproximam-se perigosamente de nos dar o prazer do sexo anal com o motor dos seus belos carros. Eis o que já me aconteceu: subia a Damião de Góis, encostado à via BUS, mas não a pisá-la, como mandam as regras. Um conjunto alargado de condutores foi-me buzinando para que me chegasse mais para “lá”, até que um me apertou perigosamente e eu acabei por obedecer. Poucos segundos depois tinha um autocarro atrás de mim a buzinar como se o mundo acabasse mesmo em 2012, e eu sem meio de regressar à via normal, dado naquele momento estar a ser usada como autoestrada. Claro está, mal tive oportunidade enfiei-me no passeio e por lá fui até ao meu destino.

Uma bicicleta nem é peão nem é carro. As regras de qualquer um dos dois não se adequam. Numa cidade como o Porto, seremos ciclistas chatos, perigosos e/ou desrespeitadores seja qual for a nossa escolha. Má sina, ein? É por estas e por outras que, mal por mal, eu escolho o que me parece mais seguro para mim e para os outros, e a verdade é que muitas vezes é mais seguro atravessar um cruzamento quando está vermelho, mas não há trânsito, do que esperar pelo verde, e levar com a  fúria da manada metalizada a sabotar-nos o centro de massa.

Gosto de respirar, caraças. Gosto tanto de respirar que julgo ser a actividade que mais fiz ao longo da minha vida. Por tal estou-me nas tintas para essas regras imaginárias, e tento comportar-me de modo a maximizar o tempo durante o qual posso respirar. Isso significa que às vezes vou pelo passeio e às vezes passo vermelhos.

Agora um pê ésse: claro, há ciclistas que andam pelo meio dos peões como se estivessem a fazer downhill, ou por entre o trânsito como numa pista de carrinhos de choque. Estes ciclistas são parvos, não porque desrespeitem regras, mas porque desrespeitam o bem estar das suas pilas e das pilas dos outros. Mas parvos há em todo o lado. Há peões parvos e há condutores parvos. Termino com a ressalva que não era de parvos que estava a falar.